Número total de visualizações de página

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

O tempo do sal




















Descarga de sal no Canal de S. Roque

Carregamento do sal em vagões, no ramal ferroviário que ligava a estação de Aveiro ao Canal de S. Roque

Todas as fotografias (com excepção da primeira, cuja origem desconheço) pertencem à "Colecção Carvalhinho", nome por que era conhecido em Aveiro o seu autor, Américo Carvalho da Silva (1908-1980)

domingo, 5 de dezembro de 2010

A barra nova de Aveiro e a Praia da Barra

Ao longo dos séculos, a comunicação entre a ria e o mar fez-se em diversos locais da costa
(Mapa existente no livro de Bartolomeu Conde "O Rio Novo do Príncipe. Causas e Vantagens da sua Construção em 1815")

Construção do farol
Colecção Morais Sarmento. Sem data (mas certamente do início da década de 1890)

O farol na fase final da sua construção
Colecção Morais Sarmento. Sem data (mas possivelmente de 1892 ou princípios de 1893, uma vez que o farol foi inaugurado em 31 de Agosto de 1893)

Barra
Edição Alberto Ferreira, Porto. Sem data

Barra
Edição Alberto Malva, Lisboa. Sem data

Dragando a ria, junto às Portas d' Água.
À esquerda, a antiga ponte de madeira assente sobre pilares de pedra, restos de uma parte do paredão que foi destruída
Colecção Morais Sarmento, 1920

Barra
Edição Souto, Porto. Sem data

Barra
Edição Souto Ratola, Aveiro. Sem data
Garraiada na Barra
Colecção Carneiro da Silva. 1921

Barra vista do cimo do farol
Colecção Carneiro da Silva. 1921

Paredão da Meia Laranja, para fixação do canal da barra nova. Ao fundo, lugres da pesca do bacalhau
Colecção Carneiro da Silva. 1921

Barra
Colecção Carneiro da Silva. 1922

O paredão da Meia Laranja, o farol e a barra
Edição Casa Baptista Moreira, Aveiro. Colecção Énio Semedo. Sem data

Hidroavião sobrevoando o paredão da Meia Laranja. Trata-se, certamente, de um aparelho da base naval de S. Jacinto, instalada por pessoal francês, em 1918, e entregue à Armada portuguesa no final desse mesmo ano. Em Abril desse ano, a França equipou a base com dez hidroaviões
Colecção Carneiro da Silva. 1922

Barra
Colecção Carneiro da Silva. 1922

Barra
Colecção Carneiro da Silva. 1922

Barra
Colecção Carneiro da Silva. 1922

Barra
Colecção Carneiro da Silva. 1924

Barra. Entrada do primeiro bacalhoeiro
Colecção Carneiro da Silva. 1926

Barra. Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes
Colecção Carneiro da Silva. 1926

Vista aérea da Barra
Colecção Morais Sarmento. 1934

Vista geral da praia da Barra
Autor desconhecido. Sem data

Transporte de estacas de eucalipto para defesa do farol
Arquivo Histórico-Documental do Porto de Aveiro. 1947

Protecção ao farol com estacas e tabuado de eucalipto
Arquivo Histórico-Documental do Porto de Aveiro. 1947

Praia da Barra
Arquivo Histórico-Documental do Porto de Aveiro. 1947

Vista geral da praia da Barra
Arquivo Histórico-Documental do Porto de Aveiro. 1947

Construção do molhe sul
Arquivo Histórico-Documental do Porto de Aveiro. Década de 1970

Ponte de madeira, na Gafanha, sobre o canal do Boco, na antiga estrada Aveiro-Barra
Autor desconhecido. Sem data

A primeira ponte que ligou o Forte à Barra. Era em madeira, mas assente sobre pilares de pedra, restos de uma parte do paredão que foi destruída
Edição Souto Ratola, Aveiro. Sem data

A antiga estrada para a Barra, que passava junto ao Forte. Ao fundo, a ponte de madeira
Autor desconhecido. Sem data

A antiga ponte de madeira entre o Forte e a Barra
Autor desconhecido. Sem data

Ponte da Cambeia, na antiga estrada Aveiro-Barra. Esta ponte ligava a Gafanha ao ilhote onde se situa o Forte da Barra. Ao fundo, à direita, o Jardim Oudinot
Jorge Cunha, 2010

A actual ponte da Barra, inaugurada em 1975, que veio substituir a antiga ponte de madeira, junto ao Forte
Sem data, autor desconhecido


Notas à margem

* Ao longo dos séculos, a comunicação entre a laguna e o mar, ou seja, a barra, existiu em diversos pontos da costa. Como se pode ver no mapa acima, a sua localização foi, sensivelmente, desde a zona onde hoje é a Torreira até perto de Mira, muito mais para sul. Além desta mobilidade da barra, e a ela associada, verificava-se a sua frequente obstrução, cortando, por períodos mais ou menos longos, a comunicação entre a ria e o mar. Daqui resultava a estagnação das águas da laguna, com consequências graves quer para a saúde pública, quer para as actividades económicas da região, como a produção de sal, a pesca, a agricultura e o comércio, a que se associava, muitas vezes, uma muito sensível recessão demográfica (em 1575, a população de Aveiro rondava os catorze mil habitantes; em 1797, estava reduzida a cerca de três mil e quinhentos). A situação calamitosa originada pelo periódico fechamento da barra dava origem a frequentes reclamações e pedidos das populações e autoridades locais, tendo como objectivo a resolução do problema da barra. Assim aconteceu, por exemplo, em 1788, quando a Câmara de Aveiro, receando o surgimento de epidemias, decidiu pedir providências à rainha D. Maria I.
* É neste contexto que surgem as primeiras tentativas de abertura de uma nova barra, rompendo o cordão dunar e restabelecendo a comunicação entre a laguna e o mar. Assim, em 1791, a rainha D. Maria I ordenou a abertura de uma barra ou regueirão junto da capela da Senhora das Areias, em S. Jacinto, o que foi feito, mas sem resultado.

* A barra nova de Aveiro (no local onde existe ainda hoje) foi aberta na primeira década de oitocentos. Três nomes se encontram especialmente ligados a esta obra: o Príncipe Regente D. João (futuro D. João VI) e os engenheiros militares coronel Reinaldo Oudinot e capitão Luís Gomes de Carvalho.

* No início de 1802, um aviso do Príncipe Regente D. João encarrega da abertura da barra nova os engenheiros coronel Reinaldo Oudinot e capitão Luís Gomes de Carvalho. O primeiro apresentaria o seu projecto logo em Março do mesmo ano, seguindo-se o de Luís Gomes de Carvalho, no mês imediato. Os projectos eram idênticos no que se refere aos trabalhos a executar, divergindo apenas quanto ao modo de os realizar. Logo em Julho do mesmo ano de 1802, o Príncipe Regente aprova os projectos das obras, vindo posteriormente (Novembro de 1803) a encarregar da sua direcção o engenheiro Luís Gomes de Carvalho.

* O início das obras, no entanto, demora ainda algum tempo. Em Março de 1805, Luís Gomes de Carvalho publica um edital em que dá conhecimento público de que o Príncipe Regente aprovara o seu projecto para "escoar as águas estagnadas na ria de Aveiro", ordenando-lhe a sua pronta execução.

* Em Março de 1806, é feita uma tentativa de abrir a barra, mas sem êxito. Quase um ano depois (Fevereiro de 1807), consegue-se a abertura da barra, que, no entanto, logo na madrugada do dia seguinte, volta a fechar-se. E só a 3 de Abril de 1808 se dá, finalmente, a abertura da barra nova. Não deixa de ser curioso registar, para se ter uma ideia dos benefícios que a abertura da barra trouxe a Aveiro e à sua região, o facto de, na cerimónia em que foi lavrado o auto de abertura da barra, a 15 de Abril de 1808, Miguel Joaquim Pereira da Silva, que o subscreveu, ter salientado: "As águas que cobriam as ruas da praça, desta cidade, e os bairros do Albói e da Praia, abaixaram três palmos de altura dentro de vinte e quatro horas e outro tanto em o seguinte espaço, e em menos de três dias já não havia água pelas ruas e toda a cidade ficou respirando melhor ar por estas providências com que o Céu se dignou socorrê-la e a seus habitantes com esta grande Obra da Barra» (Aveiro e o seu Distrito, n.º 6, pg. 45).

* Na construção do paredão da barra, foi utilizada sobretudo pedra retirada da antiga muralha de Aveiro (que, aliás, o Príncipe Regente D. João mandara demolir com essa intenção) e grés vermelho de Eirol.

* A 13 de Maio de 1809, entra na barra de Aveiro um comboio marítimo inglês, composto de mais de trinta e oito navios de transporte, escoltados pelo brigue de guerra Port Mahon, com "víveres e forragens para o Exército Inglês que por aqui mesmo se dirigia à restauração do Porto», tendo ancorado na chamada Praia da Senhora.

* Em 1849, um relatório da Junta Geral do Distrito refere que a barra de Aveiro se encontrava em «estado deterioradíssimo»; e, em 1857, a convite de José Estêvão Coelho de Magalhães, reuniram-se nos Paços do Concelho os proprietários das marinhas de sal, que solicitaram ao Governo os auxílios necessários para o melhoramento da barra, então quase obstruída, tendo sido concedido para as obras um subsídio anual de 15.000.000 réis.

* Em 1862, José Estêvão, falando na Câmara dos Deputados, pediu ao Governo a construção de um farol entre a barra nova de Aveiro e os areais de Mira, diligência que seria depois reforçada, em 1863, pela Câmara Municipal, da presidência do Conselheiro Manuel Firmino de Almeida Maia, pedindo a construção de um farol na barra de Aveiro. Neste mesmo ano, uma portaria do Ministério das Obras Públicas mandou elaborar o orçamento para a sua construção.

* No entanto, só mais de vinte anos depois (em 1884), foi elaborado o projecto do farol de Aveiro, sob a direcção do Engenheiro Benjamim Cabral. As obras de construção começaram na primeira quinzena de Março de 1885, sob a direcção do engenheiro Silvério Augusto Pereira da Silva, e terminaram em fins de Julho de 1893. A inauguração do farol é feita a 31 de Agosto de 1893 pelo ministro das Obras Públicas, conselheiro Bernardino Machado, que subiu à "lanterna", acendendo-se então, pela primeira vez, o farol. Este, contudo, só começaria a funcionar a 1 de Outubro.

* O farol, com 62 metros de altura, foi assente num maciço com seis metros de espessura, feito sobre 97 estacas de madeira verde, que ficaram totalmente abaixo do nível médio da água do mar. Nas alvenarias foram usados o grés vermelho de Eirol e alguns granitos. A escadaria, em forma de caracol, é composta por 271 degraus em pedra.

* É a partir da abertura da barra nova e principalmente da construção do farol que começa a nascer a praia da Barra como aglomerado urbano. As obras, exigindo o alojamento dos trabalhadores, terão determinado os primeiros acessos e as primeiras construções, que constituiram certamente o núcleo inicial do que é hoje a praia da Barra.

* O acesso à Barra, por estrada, só se tornou possível a partir de 1861, ano em que foi concluído o troço ligando a Gafanha ao Forte. Antes (1855), fora iniciada a ligação de Aveiro à Gafanha, que implicou a construção de uma ponte em madeira sobre o canal do Boco, perto do porto de pesca da Gafanha. A ligação da Gafanha ao Forte obrigou também à construção de uma ponte (a ponte da Cambeia), uma vez que o Forte se encontra implantado num ilhote. A travessia do Forte para a Barra fez-se inicialmente por uma ponte de madeira assente em pilares de pedra (restos de uma parte do paredão que foi destruída), ponte essa que seria mais tarde substituída por uma outra, no mesmo local, totalmente em madeira e que funcionou até 1975, ano em que foi inaugurada a actual ponte para a Barra.