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sábado, 29 de junho de 2013

Praça Marquês de Pombal


 
 O palacete do visconde de Almeidinha, destruído por um incêndio em 1871.
Neste local foi depois construído, na transição do séc. XIX para o séc. XX, 
o edifício do Governo Civil
(Fotografia: autor desconhecido; sem data)
 
 
Projecto apresentado pela Câmara Municipal, em 1905, para abertura
de um novo arruamento, que viria a ser a Praça Marquês de Pombal.
Como se pode ver, a concretização do projecto sacrificou
uma grande parte dos edifícios conventuais.
(Fonte: Alice Nogueira Alves, "Ramalho Ortigão e o Culto dos Monumentos Nacionais no Século XIX")

 
 
Convento das Carmelitas
(Fotografia: autor desconhecido; sem data)


 
 
Praça Marquês de Pombal e Convento das Carmelitas
(Fotografia: autor desconhecido; sem data)
 
 
 
Governo Civil e Convento das Carmelitas
(Fotografia: autor desconhecido; sem data)
 

 
 Praça Marquês de Pombal e Governo Civil.
Note-se que, na data em que este postal foi editado,
o nome deste arruamento era Avenida Albano de Melo.
(Fotografia: edição Baptista Moreira, Aveiro; sem data. Colecção Morais Sarmento)

 
 

Quiosque na Praça Marquês de Pombal
(Fotografia: autor desconhecido; sem data) 
 
 
 
Praça Marquês de Pombal e Convento das Carmelitas
(Fotografia: autor desconhecido; sem data)
 

 
 
Convento das Carmelitas
(Fotografia: autor desconhecido; sem data. Colecção Morais Sarmento) 

 
Convento das Carmelitas
(Fotografia: autor desconhecido; sem data. Colecção Morais Sarmento)
 
 
 
 
Governo Civil e Praça Marquês de Pombal
(Fotografia: autor desconhecido; sem data. Colecção Morais Sarmento)
 
 

 
Governo Civil
(Fotografia: autor desconhecido; sem data. Colecção Morais Sarmento)
 
 

 
 Praça Marquês de Pombal
À esquerda, em construção, o edifício do Palácio da Justiça.
(Fotografia: autor desconhecido; 1961.Colecção Morais Sarmento)
 



 Praça Marquês de Pombal
(Fotografia: autor desconhecido; sem data, mas posterior a 1952,
ano em que foi inaugurado o busto de Gustavo Ferreira Pinto Basto,
e anterior a 1963, ano em que a palmeira, ao fundo, foi derrubada)

 
 
  
Cronologia breve
 
- 1610: por ordem de D. Brites de Lara, começa a construção, no extremo sul da muralha de Aveiro, de um espaçoso paço para sua habitação, o qual, após a sua morte, deveria ser destinado a convento feminino de carmelitas descalças.
 
- 1616: conclui-se a construção do paço, onde D. Brites passa a viver, até à sua morte em 1648.
 
- 1657: alvará de D. Luísa de Gusmão, rainha regente após a morte de D. João IV, autorizando a criação do convento, que tinha sido negada pelo rei, apesar de diversos pedidos feitos por D. Brites de Lara. D. Raimundo, Duque de Aveiro e herdeiro de D. Brites, que ficara viúva sem descendência, faz então a doação do paço à Ordem dos Carmelitas Descalços, seguindo-se obras de adaptação à vida conventual.
 
- 1658: chegam a Aveiro as primeiras freiras carmelitas, vindas de Lisboa.
 
- 1659: é colocado sobre o portão do convento um brasão com as armas do Duque de Aveiro. O brasão seria totalmente picado em 1759, após o célebre processo dos Távoras, movido pelo Marquês de Pombal pela alegada tentativa de assassínio de D. José I. Um dos implicados no processo foi o 8º e último Duque de Aveiro, D. José de Mascarenhas e Lencastre, na sequência do qual foi executado, tendo todos os seus bens sido confiscados.
 
 - 1704: início da construção da igreja do convento, que só ficaria concluída em 1748. Até então, era utilizada para os ofícios religiosos a capela do paço de D. Brites de Lara que depois deu origem ao convento.
 
- 1759: Manuel de Sousa Ribeiro, conceituado cidadão aveirense, inicia a construção de um palacete, junto à muralha, no local onde hoje se encontra o edifício do Governo Civil. O palacete só viria a ficar concluído no início do séc. XIX, sendo geralmente conhecido como palácio dos Viscondes de Almeidinha. Aí se albergou a própria rainha D. Maria II quando, em 1852, visitou a cidade.
 
- 1835: José Joaquim Lopes de Lima, oficial da Marinha, é nomeado primeiro governador civil do distrito de Aveiro.
 
- 1864: o velho palácio dos Tavares, junto à porta da Ribeira (hoje Canal Central), é destruído por um incêndio. Neste edifício, onde funcionara já o paço episcopal, estavam instalados, desde 1849, o Governo Civil e a Fazenda Pública.
 
 - 1871: a 24 de Junho, o palacete dos Viscondes de Almeidinha é completamente destruído por um incêndio.
 
 - 1888: a 11 de Outubro, a Junta Geral do Distrito compra o palacete dos Viscondes de Almeidinha por 500.000 reis. No local seria construído, pouco mais de uma década depois, o edifício do Governo Civil.
 
 - 1901: é inaugurado o novo edifício do Governo Civil (ou das repartições públicas), onde ficam a funcionar, além do próprio Governo Civil, a Junta Geral do Distrito, a Auditoria Administrativa, as Finanças, as Obras Públicas e a Direcção Hidráulica do Mondego.
 
 - 1905: a Câmara Municipal de Aveiro, presidida na altura por Gustavo Ferreira Pinto Basto, apresenta um projecto de abertura de um largo arruamento, desde o edifício do Governo Civil até à Rua Direita. Após acesa polémica, começa, em Julho deste ano, a demolição parcial dos edifícios conventuais.
 
 - 1910: por decreto de 23 de Junho do Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria, a igreja das Carmelitas é classificada como monumento nacional.
 
 - 1942: a 26 de Abril, é inaugurado o novo edifício dos CTT na Praça Marquês de Pombal.
 
 - 1952: é inaugurado o busto de Gustavo Ferreira Pinto Basto na Praça Marquês de Pombal, onde permaneceu até ao início da construção do parque de estacionamento subterrâneo, altura em que foi mudado para o local onde hoje se encontra, junto à fachada nascente do Palácio da Justiça, na rua com o seu nome.
 
 - 1962: é inaugurado o novo edifício do Palácio da Justiça.
 
 - 1963:  é derrubada, no meio de bastante polémica, a palmeira que se encontrava na Praça Marquês de Pombal.
 
 
 
 Notas à margem
 
1 - "O Convento das Carmelitas (Mosteiro de S. João Evangelista) foi mandado construir por D. Brites Lara. Era filha do 1º Duque de Vila Real, D. Manuel de Meneses e de D. Juliana Lara, sendo esta, por sua vez, neta de D. Jorge de Lencastre, que fora Duque de Coimbra e senhor de Aveiro. Nascida cerca de 1564, casou com o florentino Pedro de Médicis, terceiro filho do Grão Duque da Toscana, Cosme de Médicis e, ao serviço militar de Espanha, faleceu em 1604, deixando D. Brites Lara viúva, sem descendência, pelo que esta se recolheu ao convento de Jesus, onde esteve 18 anos.
Entretanto, mandara construir, a partir de 1610, um espaçoso paço, no extremo sul das muralhas, o qual, após a sua morte e conforme testamento, haveria de ser destinado a convento feminino de carmelitas descalças. O paço ficou concluído em 1616, para onde se passou a grande fidalga, ali vivendo até à morte em 1648, tendo sido, após a revolução de 1640, a grande protectora de familiares e amigos a quem, em consequência dessa alteração política, foram confiscados os bens.
Em 1643, porém, já tinha requerido as licenças para a fundação do convento feminino, mas não foi atendida pela nova governação nacional. Entretanto, possuidora como era de grande fortuna, havia mandado levantar outro convento de carmelitas descalços, masculino, no  extremo norte da vila, em pleno lugar de Sá.
Só após a morte de D. João IV, em 1656, a rainha regente, D. Luísa de Gusmão, atendeu as sucessivas petições para o convento, por alvará de 21 de Julho de 1657, tendo sido doados à Ordem dos Carmelitas Descalços, pelo então Duque de Aveiro, D. Raimundo, o paço, as casas e respectivos quintais, altura em que foram feitas algumas imposições do donatário, nomeadamente quanto ao santo de invocação (S. João Evangelista) e seus padroeiros, que seriam exclusivamente os Duques de Aveiro, com direito a serem sepultados na capela-mor.
Seguiram-se obras de adaptação à vida conventual, tendo chegado as primeiras freiras a 1 de Julho de 1658, de Lisboa, em número de cinco, com três noviças. Ainda decorriam obras de ajustamento no ano seguinte, altura em que foi colocado um brasão com as armas do Duque de Aveiro sobre o portão do convento, que depois (em 1759) foram radicalmente picadas, em resultado da acusação sobre o Duque de Aveiro  de que havia conspirado contra a vida de D. José, pelo que o titular do ducado foi morto e confiscados os bens.
O edifício, de arquitectura modesta, enquanto convento, manteve-se inteiro até 1905, altura em que a Câmara Municipal da época, por decisão do ano anterior, fez movimentar uma das mais apaixonadas polémicas, pois aquela edilidade pretendia abrir uma larga rua, frente ao palácio do Governo Civil, ocupando o Terreiro e parte do convento. Contra, se movimentaram, entre outros, Ramalho Ortigão, Marques Gomes, Jaime Magalhães Lima, etc.... mas ganharam os políticos, amputando parte do claustro (toda a ala norte) e da própria igreja, de que, além do mais, se foi o coro alto, sem qualquer consideração pela arte e história locais."
 
Amaro Neves, "Aveiro, História e Arte" (pp. 96-99)
 
 
2 - A abertura do que é hoje a Praça Marquês de Pombal (antes chamada Avenida Albano de Melo, nome de um governador civil de Aveiro) foi iniciada em 1905 e esteve longe de ser um processo pacífico. Ainda em 1904, a Câmara Municipal, então presidida por Gustavo Ferreira Pinto Basto, anunciou a sua intenção de abrir um largo arruamento desde o edifício do Governo Civil, inaugurado três nos antes, até à Rua Direita. Na altura, como se pode ver no projecto apresentado pela Câmara em 1905 (ver, acima, a imagem 2), diante do Governo Civil abria-se um pequeno largo, conhecido por Largo do Terreiro, a que se seguiam o convento e a igreja das Carmelitas. Para lá do convento, e sensivelmente paralela a este, existia a Rua do Loureiro , a partir da qual, pela Rua da Cruz, se chegva à Rua Direita. O projecto camarário, para se concretizar, implicava portanto a demolição de uma parte significativa da igreja e do convento. Foi este o pomo da discórdia: de um lado, os que defendiam o "progresso" e a modernização da cidade; do outro, os que entendiam que o "progresso" não deveria sacrificar o seu património histórico. A polémica teve largo eco na cidade, acabando por chegar à capital.
Assim, a 15 de Março, um numeroso grupo de aveirenses, liderado pelo historiador local Marques Gomes, apresenta uma exposição ao rei, pedindo-lhe que obstasse à projectada demolição do Convento das Carmelitas. Este documento era acompanhado por um texto intitulado "Brado em favor d'um monumento", provavelmente da autoria do líder deste movimento. E, a 17 de Junho, é enviada ao Ministro das Obras Públicas uma outra exposição sobre o projecto em causa, tentando impedir o que consideravam uma perda irreparável para a cidade.
Em consequência, a questão acabou por ser discutida na Câmara dos Pares, a 15 de Abril desse ano, assim como no Conselho dos Monumentos Nacionais. Deste Conselho fazia parte Ramalho Ortigão, que, indignado com o projecto,  escreveu, em Maio de 1905, o seu "Parecer acerca da projectada destruição do Convento das Carmelitas de Aveiro", que apresentou ao referido Conselho dos Monumentos Nacionais, tendo este emitido um parecer contrário à demolição do convento.
De nada valeram estas diligências. Ignorando o parecer do Conselho dos Monumentos Nacionais, o Ministério das Obras Públicas, a 22 de Junho, acabou por autorizar a Câmara Municipal a proceder à demolição do convento, no que fosse necessário. A demolição inicia-se a 20 de Julho de 1905. Embora não tenham sido completamente destruídas, a ala norte do convento e uma parte da igreja acabaram, assim, por ser amputadas para permitir a construção da nova avenida.
 
 
Bibliografia essencial
 
- Aveiro e Cultura - Arquivo Digital de Aveiro
 
- Aveiro e Cultura - Espólio "Fernando de Moraes Sarmento"
 
- Aveiro e Cultura - Calendário Histórico de Aveiro
 
- Amaro Neves, "Aveiro, História e Arte"
 
- Eduardo Cerqueira, "algumas Notas sobre o Edifício do Governo Civil de Aveiro", in "Aveiro e o seu Distrito, Nº 30, Junho de 1982
 
- Alice Nogueira Alves, "Ramalho Ortigão e o Culto dos Monumentos Nacionais no Séc. XIX"
 
- IGESPAR (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico", "Igreja das Carmelitas, Aveiro"
 
- Arquivo Nacional da Torre do Tombo, "Convento de S. João Evangelista de Aveiro"